Não foram vários meses de silêncio e de vida claustral, foram vários meses de hibernação. O carro esteve tanto tempo parado que, certo dia, fui por ele e não pegou. No que me diz respeito, não é que me tenha falhado alguma funcionalidade biológica, mas comecei a considerar o corpo e a actividade física como abstractos, isto é desligados da sua materialidade. De certo modo, tinha recuado no meu tempo biológico àquela circunstância juvenil de quem vive na abstracção geométrica de uma cidade e na abstracção de uma agenda profissional. Mesmo fazer exercício físico é uma abstracção de exercício. Toda a realidade "real" se perde na hiper-realidade virtual dos jogos mentais que alimenta a contemporaneidade e a psicopatologia da presente era.

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Ora, fora a isso mesmo que eu tentara fugir quando me retirei da vida da cidade para a vida do campo. Foi para reencontrar o corpo na sua materialidade, para reencontrar a terra, para reencontrar a vida e recuperar a realidade.

 

O Tremontelo e toda a actividade que lhe está associada  proporcionam a satisfação desses quesitos. Mas, sempre que chega o Inverno, há mais vida de casa, o fastio da solidão que decorre na eternidade dos cinco dias úteis da semana, o silêncio assolador das árvores despidas, o sedentarismo e a compulsão a comer e a dormir a desoras.

 

Ontem não foi assim: choviscara durante quase todo o dia. À noite, depois do jantar, abri a janela cá de cima para deixar entrar um pouco de ar fresco, porque a casa, com todas as janelas fechadas quase todo o dia, tinha abafado. Veio-me um cheiro a terra húmida tão intenso que me enebriei. O perfume das rosas descobri-o depois, a subir em espiral. Tomei um banho frio antes de me deitar. A água quente fora desperdiçada em lavagens e não houve tempo para o escasso sol repor o nível térmico do depósitos. Deitei-me experimentando todos os meus sentidos, inclusive a audição do concerto de melgas, e comecei a expurgar as minhas entidades conceptuais. A realidade, finalmente, voltou.

 

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  • Justine

    Um texto belíssimo, Rui. Que me ecoa aquilo que sinto no começo da primavera: a terra húmida de manhãzinha, o cantar dos pássaros em namoro, o perfume das primeiras flores, a deshibernação das árvores.
    E depois o verão, e a seguir o outono, e de volta o inverno - tudo tão belo, tão primordial, tão efémero!
    Um abraço

  • Exactamente.
    Mas há uma questão que levanto aqui que me estás a ajudar a elucidá-la:
    Há (pelo menos) duas formas de existência: uma virtual, outra real. A virtualidade é discursiva e lúdica; a realidade é alheia às intenções humanas, é imprevisível e resiste-nos.
    Uma e outra misturam-se nas nossas mentes. Como distingui-las então?
    O critério é o que apontas: as coisas reais são belas, são primordiais, são efémeras; as coisas virtuais são disformes, são posteriores, são definitivas.
    Um beijo

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