Mas, afinal de contas, o que vem a ser o Tremontelo?


In illo tempore, isto é, quando era novo, comprava o postal ilustrado, escrevia-o e levava-o aos correios para o selar e enviar. Os tempos mudaram, o tempora o mores! Hoje, começo por escrevê-lo, primeiro um esboço, que lhe dá unidade e sentido e lhe acrescenta a memória dos pormenores, mantendo também a frescura do vivido e do emovido, fica ali a marinar numa quase vida de bela adormecida, para vir a sair do torpor da sua existência digital uns tempos depois, sabe-se lá quando, com umas sacudidelas de actividade mental que lhe preenchem os ossos com carne, que não chega a ser labor de artista, reflexidade de filósofo, objectividade de repórter, ironia de retalhador da vida social, observação de naturalista ou queixume de narcisado, que é um pouco ou nada de tudo isso, como aquelas belas mantas que se tecem de farrapos velhos. Reserva-se, como se diz na culinária, para uns tempos depois se acrescentarem os temperos e ir a lume. A ilustração do postal vem depois com a selecção de uma ou duas das centenas de fotos que atulham a profusão de suportes de memória, locais ou on line, que pornograficamente se sincronizam em devaneios ninfomaníacos de uploads e downloads logo que apanham uma nesga de Wi-Fi. Ali fica o postal, já ilustrado e selado, à espera de oportunidade de envio, decisão mando, não mando, que é difícil de justificar, mesmo para espíritos livres, e que só se compreende na natureza humana, falsamente protectora, com aquela dificuldade que há em largar os filhos, a quem se deu a vida, mas que se lhes adia o direito de a viverem por sua conta e risco.

Vem isto a propósito de uma mão cheia de postais que tenho ali, escritos, uns em Cracóvia e Paris, outros depois do meu regresso ao Tremontelo, à espera de ordem para seguirem o seu destino. Pois mais uns tempos lá ficarão, que hoje impôs-se uma funesta urgência.

Não conheci pessoalmente o Paquete de Oliveira. Conheci-o por alusão numa vasta e intricada teia de amigos e, fisicamente, proporcionou-se ter ficado a uns passos dele em eventos sociais e académicos. Conheci-o também, mais recentemente, como figura publica, da televisão e dos jornais, de cujos consumidores foi o provedor. Olhei-o sempre como figura encantadora, uma espécie de companheiro mais velho de gestos ternos e palavras prudentemente ponderadas, sempre equidistante como árbitro que não se deixa pagar pelos interesses mundanos ou como político movido pelo interesse público e que não se deixa levar pela ideologia, que é sectária e respeita apenas ao próprio. Fica-me na memória a simpatia e a candura.

Morreu.

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O almoço de hoje chez Nicole, uma senhora muito querida, mãe de uma amiga nossa muito querida também, foi agressivamente copioso e generosamente apaladado e terminou, depois de um café com um cheirinho, com o serviço bastante liberal de um Calvados, um genuíno artefacto de extracção rural. A chuva estragou os planos de visita ao roseiral local.

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O exílio, que nunca experimentei, ou a reforma, que vai dar no mesmo, é uma espécie de não estar bem aqui. Não estar bem, não como oposto a não estar mal, mas como um certo não estar completo, um certo não estar rigorosamente.

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O primeiro dia em Krakov foi nebulosa e teimosamente chuvoso. Calcorreei a cidade velha que, por ser circular, me obrigou a cruzar duas e três vezes os mesmos sítios. Não por ser perdido, timbre que me ficou mais por devaneios e elucubrações mentais do que por desvios em passeatas urbanas, em que erros, fortuna e amor se conjuram para nos infernizar o dia, mas por razões bem mais nobres que o bom nome, que devo defender, fazer respeitar e deixar ao abrigo de qualquer suspeita de insanidade, requer que sejam cientificamente fundamentadas. Pois dá-se o caso que estes percursos, aparentemente enovelados, ajudam a consolidar o mapa mental. Ora, o mapa mental, como se sabe, é construído predominantemente por processos bottom-up através de múltiplas hiperligações ponto a ponto, apesar dos bons serviços top-down que nos prestaria o Google se houvesse Wi-Fi em toda a cidade ou os antiquados mapas em papel se não tivessem a mania patológica de se enrolarem nos fundos da mochila.

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​Os seres humanos provaram e gostaram da comunicação à distância ou, numa linguagem refinada, da telecomunicação.

Comecemos por ver como era dantes. Dantes, havia a comunicação de proximidade, o que exigia a presença física daqueles que entre si comunicavam: De cara a cara, olhos nos olhos, de mãos dadas, abraçados, à distância de um murro, a acenarem-se ao longe, ao cruzarem-se um com o

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