Mas, afinal de contas, o que vem a ser o Tremontelo?


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No topo norte do Tiergarten, acima da Straße des 17 Juni e vindo da Hauptbahnhof, há por ali uns caminhos de chão empedrado ladeados de árvores completamente nuas. Ao pé delas, o chão está pejado de folhas carcomidas, de restos de ouriços e das magníficas cápsulas da Castanea sativa ou, em português vernáculo, do castanheiro. O frio não permitia que as mãos estivessem fora das luvas mais do que os segundos indispensáveis para uma fotografia à queima-roupa. Por mais que imaginasse ali um braseiro, e as castanhas em brasa a saltitarem-me nas mãos, a imaginação em nada me aquecia, só me punha fogo no rabo a urgência em andar dali para fora em direcção à Porta de Brandenburgo. Mais adiante, não muito longe, encontrei uns magníficos exemplares do Rubus fruticosus ou, em linguagem de gente, silvas bravas. Esmiuçando a fotografia consegue-se ver as amoras ressequidas e os ramos espinhosos.

A vida por ali está uma bela adormecida à espera de ser beijada pelo príncipe do primeiro verão (em latim, Primavera). Pús de lado a ideia de ir visitar o Jardim Botânico, aonde se vai pelo S-Bahn S1 e que se situa para sul na extremidades da segunda coroa da ferrovia urbana. Era a distância, era o frio, era o estado da natureza, tudo conjurava para que a minha desistência se realizasse. "Dei-lhe para cima", como dizem os anglófonos. Não valia o esforço ir visitar as estufas apenas, por excelentes que sejam. Ali ficou expresso o desejo de voltar na primavera ou no verão para passar uns dias no Botanischer Garten (site) que tem uma área de 43 Tremontelos e um número elevado de estufas (desenho).


Para ver no Portal das Angiospérmicas as referências ao castanheiro e à silva do Tremontelo siga os links:

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Começou nebulento, enregelador, pardacento e foi assim ao longo do primeiro dia. Tirar luvas, colocar a máquina entre o gorro e o cachecol, não demorar, disparar. Que logo se veria!  

Tirando raros momentos de chuva, do tipo molha-tolos, a semana passou-se seca. Com frio de rachar, o hotel, o metro e as galerias comerciais tornaram-se apetecidas. Nas ruas, gozava-se uma paz de cemitério. Os jardins eclipsaram-se e o Tiergarten (com uma área correspondente a 210 Tremontelos) era uma floresta de paus espetados no solo com ramos nús a dedilharem os céus. O Spree contorcia-se molengão, pardo, sem garra.

Berlim é como Nova Iorque: tem gente de tantas paragens e hábitos que até se consegue encontrar por lá alemães, e a Kudamm dá ares à 5ª Avenida.

A cidade não cria paixões, daí não haver o risco de criar ódios. É uma cidade com que se simpatiza desde o momento da aterragem em Tege. E, a respeito dela, sabemos logo que iremos ficar amigos para toda a vida.

 

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O almoço de hoje chez Nicole, uma senhora muito querida, mãe de uma amiga nossa muito querida também, foi agressivamente copioso e generosamente apaladado e terminou, depois de um café com um cheirinho, com o serviço bastante liberal de um Calvados, um genuíno artefacto de extracção rural. A chuva estragou os planos de visita ao roseiral local.

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In illo tempore, isto é, quando era novo, comprava o postal ilustrado, escrevia-o e levava-o aos correios para o selar e enviar. Os tempos mudaram, o tempora o mores! Hoje, começo por escrevê-lo, primeiro um esboço, que lhe dá unidade e sentido e lhe acrescenta a memória dos pormenores, mantendo também a frescura do vivido e do emovido, fica ali a marinar numa quase vida de bela adormecida, para vir a sair do torpor da sua existência digital uns tempos depois, sabe-se lá quando, com umas sacudidelas de actividade mental que lhe preenchem os ossos com carne, que não chega a ser labor de artista, reflexidade de filósofo, objectividade de repórter, ironia de retalhador da vida social, observação de naturalista ou queixume de narcisado, que é um pouco ou nada de tudo isso, como aquelas belas mantas que se tecem de farrapos velhos. Reserva-se, como se diz na culinária, para uns tempos depois se acrescentarem os temperos e ir a lume. A ilustração do postal vem depois com a selecção de uma ou duas das centenas de fotos que atulham a profusão de suportes de memória, locais ou on line, que pornograficamente se sincronizam em devaneios ninfomaníacos de uploads e downloads logo que apanham uma nesga de Wi-Fi. Ali fica o postal, já ilustrado e selado, à espera de oportunidade de envio, decisão mando, não mando, que é difícil de justificar, mesmo para espíritos livres, e que só se compreende na natureza humana, falsamente protectora, com aquela dificuldade que há em largar os filhos, a quem se deu a vida, mas que se lhes adia o direito de a viverem por sua conta e risco.

Vem isto a propósito de uma mão cheia de postais que tenho ali, escritos, uns em Cracóvia e Paris, outros depois do meu regresso ao Tremontelo, à espera de ordem para seguirem o seu destino. Pois mais uns tempos lá ficarão, que hoje impôs-se uma funesta urgência.

Não conheci pessoalmente o Paquete de Oliveira. Conheci-o por alusão numa vasta e intricada teia de amigos e, fisicamente, proporcionou-se ter ficado a uns passos dele em eventos sociais e académicos. Conheci-o também, mais recentemente, como figura publica, da televisão e dos jornais, de cujos consumidores foi o provedor. Olhei-o sempre como figura encantadora, uma espécie de companheiro mais velho de gestos ternos e palavras prudentemente ponderadas, sempre equidistante como árbitro que não se deixa pagar pelos interesses mundanos ou como político movido pelo interesse público e que não se deixa levar pela ideologia, que é sectária e respeita apenas ao próprio. Fica-me na memória a simpatia e a candura.

Morreu.

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O primeiro dia em Krakov foi nebulosa e teimosamente chuvoso. Calcorreei a cidade velha que, por ser circular, me obrigou a cruzar duas e três vezes os mesmos sítios. Não por ser perdido, timbre que me ficou mais por devaneios e elucubrações mentais do que por desvios em passeatas urbanas, em que erros, fortuna e amor se conjuram para nos infernizar o dia, mas por razões bem mais nobres que o bom nome, que devo defender, fazer respeitar e deixar ao abrigo de qualquer suspeita de insanidade, requer que sejam cientificamente fundamentadas. Pois dá-se o caso que estes percursos, aparentemente enovelados, ajudam a consolidar o mapa mental. Ora, o mapa mental, como se sabe, é construído predominantemente por processos bottom-up através de múltiplas hiperligações ponto a ponto, apesar dos bons serviços top-down que nos prestaria o Google se houvesse Wi-Fi em toda a cidade ou os antiquados mapas em papel se não tivessem a mania patológica de se enrolarem nos fundos da mochila.

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